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Sincericídio

Quem de nós não conhece alguém inconveniente que, sob o pretexto de ser sincero despeja palavras carregadas de “verdades próprias” que machucam quem as ouvem? A palavra sincero é derivada do latin ” sin cera” e significa o seguinte: Na Roma antiga, os senadores encomendavam aos artistas que confeccionassem uma estátua que representasse eles próprios. Recomendavam que as estátuas não poderiam ter trincas, rachaduras, teriam que ser perfeitas. Quando os artistas erravam o cinzel nas trincas e rachaduras, preenchiam com cêra. Daí a preocupação dos senadores: queriam uma estátua “sem cêra”. O termo ao longo do tempo tornou-se sinônimo de autenticidade, de sinceridade.

A sinceridade é reconhecida como uma virtude, no entanto, por vezes é mascarada de crueldade e humilhação. O sincero se sente justificado e incompreendido pois afinal, só falou a “verdade”.  Verdade? O que é a verdade? Um ponto de vista pessoal e particular talvez. O sincero não falou a verdade, disse o que pensava sem filtros e ainda acha que o outro que se magoou é sensível demais e não suporta ouvir “verdades”.

Algumas vezes o sincero tem boa intenção pois acredita que, ao se preocupar com um amigo, por exemplo, deva-lhe dizer a verdade como forma de alertar-lhe de algum risco; risco de se ferir emocionalmente, de sair na rua de forma inadequada, de falar o que não deveria, etc. Mesmo assim, existem maneiras adequadas e acertadas de falar.

Outra forma de sincericídio é quando a pessoa diz a verdade com o desejo consciente de aborrecer e repudiar: “Você engordou, hein!” Sabe a pessoa que não será bem vindo tal comentário porque acentua uma dificuldade, expõe uma fragilidade e nada acrescenta. Por que diz então? Diz para tripudiar, para se sentir superior, para tirar a atenção sobre os próprios pontos fracos e colocar luz sobre os defeitos alheios, por pura fraqueza e tirania. Há quem sinta um enorme prazer em praticar sincericídio, prazer sádico e egoísta, é fato.

Assim, temos que reconhecer que a sinceridade é uma virtude suspeita e que algumas vezes provoca um efeito nefasto e devastador.

A sinceridade é a crença no próprio dizer, ela tem pouco a ver com a verdade.

O casamento é uma cruel vítima do sincericídio, onde o excesso de intimidade torna-se pernicioso e algumas “verdades” são ditas como navalha. Dar a opinião sobre a família do parceiro, sobre suas dificuldades emocionais, ou pior ainda, quando entre amigos um começa a falar mal do outro expondo fraquezas e abrindo feridas. O sincericida não se dá conta de seu poder bélico. Realmente não compreende a reação que causa com suas palavras bomba. Acha que a ideia de que apenas fala o que pensa, não merece críticas.

O fato é que muitas amizades, empregos e casamentos ficam intoxicados por pessoas que agem desta forma. Aos sincericidas, sincericínicos, sincerisádicos, minha dica: não se dêem tamanha importância… Suas opiniões são apenas pontos de vista filtrados por sua miopia e experiência pessoal. Continuem a dar sua opinião mas não a chamem de verdade. Sabendo como falar é completamente possível ser sincero. Sincero e sensível, sincero e empático, sincero e educado. Que tal?

 

(matéria publicada na Ed. de Setembro 2014) 

Comment (1)

  • Cristina 17 de dezembro de 2015 - 12:31 Reply

    “A sinceridade é a crença no próprio dizer, ela tem pouco a ver com a verdade”, ou ainda “Suas opiniões são apenas pontos de vista filtrados por sua miopia e experiência pessoal. Continuem a dar sua opinião mas não a chamem de verdade”.
    Verdade? Que pretensão, não? Como se houvesse tal coisa. Como o mundo fosse divido em dois largos polos: a verdade, e a mentira. E o cínico fosse de mentira. Pois, afinal o cínico perpetua o mal, e novamente o mundo é dividido em bem e mal.
    Análise pueril. Nunca li um texto texto tão ruim sobre “ser sincero”, e não, não estou falando isso para agredir, estou falando porque é o que acho, e o que acho está tão distante da verdade quanto o que você escreveu, pois a verdade não existe, é apenas uma construção do grupo dominante.
    O sincericídio, por sua vez, tem a ver com outros elementos. Nem todo individuo está disposto a iludir a platéia, ou fazer a manutenção do status quo, a fim de manter a interação social no grupo do qual faz parte, as vezes, interessa ao individuo revelar bastidores, constranger, ou simplesmente dizer o que lhe vem a mente sem ter que sofrer sanções de qualquer tipo.
    Os acomodados que se incomodem. Os “normais”, menos conhecido como mentirosos, mas não menos mentirosos por não serem conhecidos dessa forma que se refestelem na descrença do dizer para manterem suas figuras “sem cera”.
    As pessoas pedem por mais sinceridade, mas ao se depararem com ela, a acham agressiva e pouco cordial.
    Um viva ao cínico, que ao menos sabe ser hipócrita, e sabe que é hipócrita! Aos “bons” e “verdadeiros” resta uma vida em cima do muro, de mais palavras, de travesseiro molhado de lágrimas, de domesticação.

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