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Mas eu me mordo de ciúme

E acordo com o dicionário, ciúme significa: inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração. Vigilância ansiosa ou suspeitosa nascida dessa inquietação.
Há quem pense que quem não tem ciúme não ama, mas, segundo a psicóloga e terapeuta clínica de adolescentes, adultos e casais Silvia Barros, o ciúme não é sinal de amor e sim de insegurança. “Quem não sente ciúme tem autoconfiança e confia no outro. Existem diversas formas de demonstrar amor e certamente o ciúme não é a mais saudável.”
Para a publicitária Juliana Lopes, o jeito ciumento e explosivo de seu parceiro Lucas, 35, era normal. Jovem e aventureiro, o casal passava quase todas as noites em shows e baladas, pois Lucas era cantor de uma banda. Juliana abriu mão de seu emprego, família e estudos para viver uma vida cheia de aventuras e sem regras ao lado de seu grande amor. “Em três meses de namoro fomos morar juntos.” O casal se conheceu em uma festa e se uniu de forma trágica. Tinha tudo para ser uma história linda de amor. Entretanto, não foi o que aconteceu. “Eu sofri um acidente de carro e ele ficou ao meu lado o tempo todo, foi assim que nos apaixonamos.”
A princípio, segundo Juliana, era tudo tranquilo e quase não brigavam, pois os amigos eram os mesmos, todos casados e de confiança do cantor. Mas aos poucos, ele foi se mostrando como realmente é, um ciumento possessivo. “Após cinco meses juntos, tivemos a nossa filha. Quando ela fez 2 anos eu decidi que ia voltar a trabalhar e estudar, o irmão dele faleceu e Lucas parou de cantar. Foi então que começou a ser mais agressivo e não queria que eu retomasse minha rotina. Me vigiava até na faculdade.” De acordo com a jovem, as brigas
eram diárias. No início, eram ofensas verbais, depois de um tempo agressões físicas. “Ele já me agrediu na frente de familiares.
Afundou as quatro portas do meu carro, destruiu meu apartamento e quebrou tudo o que tínhamos dentro de casa, jogou minhas roupas e sapatos fora. Tudo por ciúme de eu trabalhar fora de casa.”
Nas redes sociais todo cuidado era pouco, os amigos não podiam comentar as fotos dela senão era declarada a “Guerra Fria”. “Um grande amigo que, por sinal, era homossexual, comentou uma foto dizendo ‘Ivetinha linda’ (ele e outras pessoas dizem que me pareço com a cantora Ivete Sangalo) e, vendo o post, meu ex fez vários comentários ofensivos. Fiquei muito envergonhada.”
A psicóloga Silvia afirma que esse tipo de ciúme é denominado patológico e é tratado pela psiquiatria como um transtorno mental.
“Quando o ciúme vem acompanhado de ideias obsessivas ou delirantes sobre infidelidade, o diagnóstico é de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo).”

Amor bandido

Mesmo sofrendo, Juliana não conseguia se desvincular de seu parceiro, foram seis anos de relacionamento. Sua família e amigos a aconselhavam se separar de Lucas, mas ela ignorava os conselhos. “Depois das brigas ele vinha chorando me pedir perdão, entre beijos e abraços eu sempre o perdoava e acreditava nele, que me prometia mudanças constantes.” Engraçado, amigo e sempre solicito a quem precisasse, Lucas era querido por quem o conhecia, mas poucos imaginavam como ele era com a esposa. “Certa noite quando estávamos jantando em uma lanchonete ele cismou que eu estava olhando para um rapaz na mesa ao lado, começou a me questionar e eu neguei, pois eu nem tinha visto o tal moço. Lucas, irritado, jogou o lanche no meu rosto e começou a gritar comigo. Saí de lá em prantos.”
Juliana diz que para encerrar as brigas concordava com ele e em algumas vezes pedia desculpas, porque queria que tudo acabasse logo, já que sentia muita vergonha das atitudes do marido.
“Eu o amava, e acreditava que, enquanto existisse amor, o casal não devia se separar, mas eu estava sofrendo e nossa filha, que presenciava tudo, também.” O receio da publicitária com as atitudes do parceiro era tanto que preferiu perder seu celular para evitar tensões. “O namorado de uma amiga me ligou para pedir minha opinião sobre uma surpresa que queria fazer para a namorada, mas quando o celular tocou, Lucas entrou no banheiro e com medo joguei o aparelho na privada. Ele jamais ia entender o motivo da ligação. Era doente.”
Lucas estava seguro de si e achava que podia mandar e desmandar em Juliana por causa da filha do casal e pelo fato de a jovem nunca se impor diante das péssimas situações. “Nunca nos separamos, mesmo com as mais turbulentas brigas, mas sempre dizia para ele que quando decidisse sair de casa nunca mais voltaria. Até que acordei para a vida, sai de casa e fui ser feliz de verdade. Não me arrependo. Hoje estou em outro relacionamento, com uma pessoa que me respeita e, se não der certo, paciência.
Eu já me basto para viver bem.”

Loucura e obsessão

Já pensaram em ter um detector de mentiras em casa e ser submetido por sua esposa a testes toda vez que vier da rua? Pois é, parece loucura, mas a britânica Debbi Wood, 31, faz isso todos os dias com o marido como se fosse a coisa mais normal do mundo. O ciúme de Debbi é patológico e foi considerado “síndrome de Otelo”.
Otelo: Sai prostituta infame! Vais chorá-lo na minha frente?
Desdêmona: Ó meu senhor! Bani-me de vossa vista, mas deixai-me viva.
Otelo: “Para trás, prostituta!”
Desdêmona: Hoje, não; amanhã! Deixai-me viva!
Otelo: Se resistires…
Desdêmona: Meia hora apenas.
Otelo: Não há trégua; está feito.
Desdêmona: O tempo, apenas, de rezar uma vez.
Otelo: É muito tarde. (Asfixia-a.)
Foram essas a últimas palavras trocadas por Otelo e Desdêmona antes que a jovem fosse injustamente assassinada por seu grande amor que, louco de ciúme, a asfixiou. Uma obra de William Shakespeare que se tornou nome da síndrome dos incontrolados de ciúme. As pessoas que têm síndrome de Otelo sofrem com o delírio de que seus parceiros ou parceiras são infiéis. “O indivíduo fica obcecado com a ideia de traição e infidelidade e tenta fazer de tudo para buscar provas que mostrem que ele está certo”, conta Silvia.
Em casos extremos, a pessoa que sofre com o transtorno pode matar o objeto de seu ciúme. “Quando chega ao homicídio é porque existe outro tipo de personalidade patológica que se desenvolve a partir de uma paranoia ou em um ciúme delirante”, diz a especialista.
A síndrome de Otelo é mais comum em homens do que em mulheres. No homem, “o apego real e simbólico à figura da mãe” atuaria inconscientemente gerando sentimentos “ambivalentes” de amor e ódio com relação a outras mulheres.
Ainda existe a cultura de que o homem domina a mulher. Como resultado, alguns homens esperam que suas companheiras se submetam às suas regras e qualquer conduta de autonomia é vista como suspeita.

Sentimento de posse

O desejo do ciumento crônico é que o(a) parceiro(a) seja exclusivamente dele. Se pudesse filmar e acompanhar seu dia seria uma maravilha. O cimento quer provas diárias e constantes de tudo para se certificar de que não foi traído.
“Ele se baseia em sua insegurança e não propriamente em fatos concretos.
Tem ciúme daquilo que acha que vê e do que não viu também.”
Procura vestígios, ouve na extensão do telefone, mexe em carteira, celular, correspondência e e-mails com o objetivo de encontrar alguma prova do que mais teme: a infidelidade. É um delírio que para ele tem coerência.
O ciumento sente que seu afeto está constantemente em risco porque tem baixa autoestima e precisa de ajuda para se encontrar, se gostar, se valorizar e vencer o medo extremo de perder o outro. “O problema é social, comportamental e emocional.
Tem relação com autoestima e dificuldade em lidar com frustrações e insegurança. Estes aspectos podem começar a se delinear na infância. Sem contar que ele é um traidor em potencial que, como sabe de seus desejos ou atos, teme que o outro faça o que ele faz ou
pensa em fazer.”
Algumas vezes a paranoia aumenta tanto que o ciumento é capaz de trair para não se sentir enganado.
Faz antes que façam com ele. “A psicoterapia é a melhor alternativa para vencer esse sentimento.
A saúde do relacionamento depende da disposição do casal de encarar esta dificuldade e buscar a ajuda que necessita.” Quem se ama entende perfeitamente porque é amado. Já quem não se gosta não consegue achar motivos para que o outro lhe seja fiel.

Amor só de mãe?

O ciúme é também o medo do abandono.
“A baixa tolerância, a frustração e a inveja também são motivos de ciúme.
O motivo do ciúme pelo próprio filho é a posse, o não querer dividir o que é sua propriedade, assim como, ver o filho do parceiro como concorrente num triângulo em que o ciumento teme ser excluído.”
Foi o que aconteceu com Roberta dos Santos, jornalista, que namorava com o vendedor Robson de Oliveira. Ela foi apresentada a sua sogra Marli de Oliveira em um encontro de família. A cordialidade permaneceu e Roberta foi muito bem recebida, principalmente por seu sogro. “Quando ela percebeu que meu relacionamento com o filho dela estava ficando sério, ela começou a mudar comigo, me tratando com indiferença. Sentia que minha presença a incomodava.”
As indiretas e diretas eram constantes e, segundo Roberta, a sogra costumava questionar o filho: “você não vem para em casa? Aonde você vai? Você está gastando muito, não precisa comer fora; desgruda um pouco ou vai enjoar”.
Sempre com a intenção de afastar o casal.
Robson mantendo-se neutro tinha receio de que as duas mulheres de sua vida tivessem atritos por sua causa. Roberta evitava cair nas investidas da sogra, mas se chateava e cobrava uma postura mais firme de seu, até então, namorado.
Ao anunciar o casamento, o descontentamento estava estampado na face de Marli, entretanto nada abalou a relação do casal.
“Minha família comemorou, já minha sogra nem nos abraçou e disse que era falta de respeito termos decidido isso sem a opinião dela, que queria fazer tudo a seu jeito, inclusive mandar na minha festa e cerimônia.”
Mãe de dois homens e uma mulher, Marli só demonstrava ciúme excessivo com Robson, tendo com a outra nora uma cumplicidade que só grandes amigas têm. “Fiquei chateada por sempre tentar ficar mais próxima dela e em pouco tempo ela não ligar.
Parecia que ela fazia questão de mostrar que minha cunhada era a nora ideal e eu não.”
Tudo era motivo para culpar Roberta pelos “tropeços” do esposo. Até uma crise financeira enfrentada pelo casal foi razão para que Marli a acusasse de tê-la provocado.
“Ela disse que casamos muito jovens e por imposição minha. Podíamos ter evitado tal problema se não estivéssemos casados.”
Atualmente a relação de Roberta e Marli é de respeito e se estabilizou. “O sentimento que ele tem por mim é diferente do que ele sente pela mãe e eu acredito que ela tenha entendido isso.”

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