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Crianças mimadas, pais neuróticos, filhos ansiosos

Como é desagradável assistir uma cena protagonizada por uma criança mimada e uma mãe desesperada. É realmente triste perceber a situação de impotência que avassala esta pobre mãe. A criança está apenas revindicando um desejo como já fez diversas vezes e onde obteve sucesso. Importante dizer que esta criança não nasceu assim. Quando este quadro patético ocorre, ou seja, um momento  imperioso onde a criança exige algo e a mãe se vê perdida, muitos outros momentos já ocorreram onde a criança ganhou pela birra insistente. Aquela antiga educação do olhar onde a criança entendia seus pais apenas pela comunicação dos olhos, morreu. O que veio em seu lugar foi uma liberação do que se chama de personalidade natural da criança. “Quer riscar a parede?” Pode! “Quer colocar os pés sujos no sofa?” Pode! “Quer comer doce antes do almoço?” Pode! “Quer sentar onde sua avó está?” Pode! “Quer jogar mais cinco minutos?” “Mais um pouco?” “Só mais um pouquinho?” Pode!  Só não pode contrariar, reprimir, traumatizar…  Criança tem que ser saudável e feliz, é isso que importa. Mas alguns pais esquecem de ensinar sobre felicidade, sobre respeito e empatia, sobre como entender suas emoções e o que fazer com elas e assim,  imaginam que proporcionando o que o mundo oferece como símbolos de sucesso, basta.  O resto se faz sozinho, por conta da natureza. Errado! Criança deve ser preparada a ser gente,  alguém que saiba se relacionar consigo mesma e com a vida através de exemplos vividos em casa, de forma que aprenda a encontrar em si as coisas que procura e necessita, bem estar, alegria, prazer, felicidade…

As crianças de hoje são de longe as mais mimadas de todos os tempos, roupas caras e de marca antes de entenderem para que servem , ballet antes que saibam andar direito, a melhor pré-escola , mais famosa, mais cara. No aniversário, não basta um bolo feito pela boleira do bairro, balões coloridos, brigadeiro e amigos de escola. Os aniversários são super produções hollywoodianas que custam um carro… um carro!!!  Aquele que antigamente os pais diziam: “com dezoito você tira carteira e, se der, a gente compra um carrinho usado pra você treinar.” Os pais se auto promovem promovendo festas apoteóticas, roupas caríssimas, escolas de luxo, celulares escandalosamente caros, férias estravagantes e tudo que signifique poder e status. Só não se lembram de ensinar como ganhar dinheiro para poder manter os luxos mais tarde. Só não ensinam que isso não é o mais importante, aquele papo “bobo” de valores, virtudes, ajuda ao próximo, coisas chatas assim não interessam, um dia a vida ensina.  Os pais barganham tudo, se tirar nota boa vai ganhar…  Se for na casa da avó vai poder… Daqui a pouco estarão negociando abraços. “Quanto quer para me abraçar, filhão?” Os pais querem que seus filhos sejam felizes e alcancem sucesso mas não se preocupam em dar aos filhos as ferramentas para chegar ao sucesso. Querendo proteger os filhos das adversidades e perigos, falam por eles, brigam por eles, negociam por eles, fazendo com que sejam  dependentes destes pais para sempre pois não saberão se proteger e falar por si mesmos no futuro. E no futuro, que um dia chegá, esses jovens mimados não se adaptarão porque não aprenderam a se adaptar, não tem resiliência a nada, não lidam bem com autoridade, com críticas, com desafios. Por isso tanta depressão, pânico, adicções das mais diversas.  Quando esses mimados chegam a faculdade, quando os pais deixam que eles prestem cursos longe de casa, ficam felizes porque sentem que finalmente terão a liberdade desejada mas também amedrontados por não saberem fazer nada sozinhos e isso causa medo , muito medo mesmo. Nos pais causa a chamada síndrome do ninho vazio precoce. Normalmente acontece quando os filhos se casam mas tem ocorrido mais cedo porque a dependência é também e principalmente dos pais para com os filhos. Para amenizar, escolhem os apartamentos onde morarão, grudados a faculdade, mobiliam tudo, enchem a geledeira e freezer, arrumam uma faxineira duas vezes por semana e vira e mexe aparecem para dar uma incerta e ver se tudo está sob controle.

Se analisarmos quanto tempo é investido nos filhos, quanto dinheiro, quantas situações de prazer são proporcionadas a eles durante a vida, eles deveriam ser super felizes, super competentes, super ricos e equilibrados, mas não são.  São extremamente ansiosos, vivem a expectativa do vir a ser …e o medo de não serem nada do que querem e ainda, de decepcionar os pais.  Esta alta ansiedade pode gerar depressão. O prazer é substutuído pela ansiedade, a alegria pela euforia, o medo pelo pânico.  Ao chegarem ao mercado de trabalho, ansiosos e medrosos, precisam mostrar-se poderosos porque a vida toda disseram a eles que eram especiais e que podiam tudo. Chegam arrogantes, prepotentes e intoleráveis. Assim, não permanecem nos empregos, gastam mais do que tem, estabelecem relacionamentos descartáveis e levam uma vida onde falta sentido.

A geração Y veio promover mudanças com sua criatividade , irreverência e capacidade intelectual mas como diz o velho ditado: “não se oferece nozes a quem não tem dentes.”

Há vinte anos oriento pais e nos últimos tempos a demanda pela orientação cresceu demais pois os pais chegam perdidos e não entendem como um filho tão amado e protegido pode ter problemas como pânico, depressão e infelicidade. Quem sabe, tocados por esta leitura, outros pais possam repensar sua forma de educar e encontrem o equilíbrio entre amar e fazer o que é preciso.

Silvia Barros

Psicóloga clínica

www.silviabarros.com

Contato: Tel (19) 32941005

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